Mercado da Gramicultura no Brasil

Atualizado em 2025
Autores: Livia Sancinetti Carribeiro - Engenheira Agrônoma, Mestre em Agronomia (Irrigação e Drenagem), Doutora em Agronomia (Irrigação e Drenagem) pela UNESP, Botucatu-SP e Coordenadora Executiva da Associação Nacional Grama Legal e Patrick Luan Ferreira dos Santos - Engenheiro Agrônomo, Mestre em Agronomia (Sistemas de produção) e Doutor em Agronomia (Horticultura), UNESP, Botucatu-SP.

Introdução

A gramicultura brasileira, pode ser considerada recente, onde os grandes avanços e inovações tecnológicas passaram a crescer no setor a cerca de 20 anos atrás. Assim, as áreas gramadas que até algum tempo eram divididas em 3 diferentes categorias (gramados paisagísticos, gramados esportivos e produção de gramas) passaram a ser classificas em 6 grandes segmentos:

São muito comuns em gramas:

  • Produção de gramas: é o ponto inicial de toda a cadeia produtiva, onde ocorre a produção dos tapetes que serão entregues para o cliente final. É na produção, onde são empregadas técnicas agronômicas de cultivo, que a qualidade dos tapetes estará garantida;
  • Gramados para ornamentação: Englobando todo o setor de paisagismo, jardinagem, parques, praças, cemitérios e arquitetura paisagística;
  • Gramados funcionais: Refere-se ao segmento das gramas utilizadas em obras, rodovias, aeroportos e ferrovias;
  • Gramados esportivos: Desde campos de alta performance, como futebol e golfe, até o futebol amador e esportes menos frequentes no Brasil como: Rugby, tênis, baseball, hipismo, turfe, bowls, polo, cricket e hockey na grama;
  • Gramados ambientais: São gramados pouco manejados pelo homem, sendo geralmente utilizados em áreas de preservação permanente e contenção de solo.
  • Pesquisas científicas: Dentre esses 5 segmentos listados, o setor de pesquisa é o único que deve andar sempre lado a lado com cada um dos 4 demais tópicos, pois ele quem irá trazer inovações tecnológicas para melhorar a qualidade e exigência do mercado.

Com essa nova divisão do setor, o mercado consumidor e os profissionais que trabalham com gramicultura, passaram a ter um melhor entendimento das necessidades de cada área, onde cada uma tem a sua particularidade e manejo específico.

Dentre todos esses segmentos, o maior mercado destinado aos gramados produzidos, são as gramas do Paisagismo e dos Gramados Funcionais, ficando para o setor de Esportes e Pesquisa um volume muito pequeno e pouco expressivo.

Produção de Grama X Mercado consumidor.

Figura 1: Produção de Grama X Mercado consumidor.

Crescimento no setor

Através das investigações científicas as atualizações nas áreas de produção de grama, o setor ganhou força e fez com que novas tecnologias chegassem ao Brasil e aumentassem as conquistas dos produtores. Um dos pontos a se destacar é que muitas dessas atualizações foram graças aos esforços iniciais da UNESP (Universidade Estadual Paulista).

A UNESP é instituição no 1 em pesquisas com gramas, onde foram produzidos no total até o ano de 2022, 37 teses e dissertações sobre o tema, e vários artigos científicos publicados nas mais diversas áreas gramadas. Esses experimentos e inovações são graças a 4 grandes doutores que trabalham com pesquisas do setor, sendo eles: Prof. Dr. Roberto Lyra Villas Bôas (UNESP Botucatu), Prof. Dr. Leandro José Grava de Godoy (UNESP Registro), Prof.a Dr.a Regina Maria Monteiro de Castilho (UNESP Ilha Solteira) e Prof.a Dr.a Kathia Lopes Pivetta (UNESP Jaboticabal). Dois desses pesquisadores idealizaram a criação do SIGRA – Simpósio Brasileiro Sobre Gramados, que se tornou o maior evento sobre Gramados do Brasil.

Iniciado em 2003 o SIGRA teve sua primeira edição com grande destaque no mercado, e hoje quase 20 anos depois, graças a esse evento, existem informações, inovações e tecnologias para o setor, sendo lançados no total 6 livros sobre o tema (5 edições do tópicos atuais sobre gramados e 1 livro de nutrição, adubação e calagem para produção de gramas), 3 livros textos das palestras dos 3 primeiros SIGRAs e mais 5 anais de congressos de trabalhos científicos realizados e que foram publicados no simpósio. Todos os trabalhos. Livros textos e produções realizadas pelo SIGRA podem ser consultadas juntos ao site do infograma.com.br, o maior portal sobre gramados do Brasil. No ano de 2010, iniciou-se o projeto “Grama Legal” quando um grupo de gramicultores se mobilizou por uma maior profissionalização da gramicultura brasileira, buscando amadurecimento, regularização e formalização do setor, que em alguns anos depois se tornou a Associação Nacional Grama Legal, hoje é a maior associação de gramicultura brasileira, contando atualmente com 31 associados, que representam atualmente 10 mil hectares em áreas de produção.

EM 2020 foi lançada a primeira edição especial em uma revista científica brasileira (Ornamental Horticulture) totalmente dedicada a divulgação de artigos científicos voltados para Gramados, onde foram publicados 15 trabalhos de diferentes pesquisadores de todo o Brasil. E finalmente a partir de 2022, com o fim da Covid foram realizados grandes eventos do setor, o primeiro foi por iniciativa da coordenadora executiva da Associação Nacional Grama Legal (Lívia Sancinetti Carribeiro) que idealizou e propos o 1º Encontro Nacional de Gramicultura na cidade de Tatuí-SP, que trouxe o pesquisador Prof. Dr. Kevin Kenworthy, especialista em Zoysias e criador de duas cultivares de grama: CitraZoy e CitraBlue. Ainda, grandes outras palestras e inovações para o setor foram apresentadas, trazendo grandes conquistas para o setor, e que reuniu vários profissionais de todo o Brasil. E em outubro de 2022, após 7 anos de espera, foi realizado o VIII SIGRA, que trouxe o tema: “o futuro da grama pós-pandemia” que levou grandes nomes nacionais e internacionais a partir de demandas existentes em cada setor. Com isso, chegaram inovações para os diferentes segmentos, palestras técnicas e máquinas e equipamentos para uso em áreas gramadas e demonstração de novas variedades para o Brasil.

Mercado atual de gramas no Brasil

Durante a última década, a produção nacional de gramas apresentou um crescimento expressivo, sendo este impulsionado pela maior exigência do mercado consumidor, grandes eventos esportivos realizados nos últimos anos no Brasil (copa do mundo FIFA 2014 e Olimpíadas 2016), aumento de áreas gramadas em obras de engenharia (construção civil, rodovias, aeroportos e ferrovias) e paisagismo. Aliada ao aumento da demanda pelo mercado consumidor ocorreu a expansão de áreas de produção para regiões do país até então pouco exploradas. Conforme levantamento anual realizado pela Associação Nacional Grama Legal junto ao MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), estima-se que a área atual de produção de gramas ocupada por produtores devidamente inscritos no RENASEM seja de, aproximadamente, 25 mil hectares no país.

A Figura 2 apresenta o crescimento da produção no país a partir do ano de 2010 até o ano de 2024. Nota-se que houve uma redução no número de produtores inscritos no ano de 2024, fato este que pode estar atribuído a publicação e implementação de novas normas para produção e comercialização publicadas a partir do ano de 2020. Neste sentido, muitos prazos de renovação foram perdidos por parte dos produtores.

Com os dados coletados no site do RENASEM é possível estimar que existem, aproximadamente, 25 mil hectares de grama distribuídos em 316 unidades de produção de mudas locadas em diversas regiões do país. Do total de unidades de produção 50,95% estão localizadas na região sudeste, 18,04 % na região Sul, 11,08 % região norte, 9,17% no nordeste e 10,76% no centro-oeste (Figura 3).

Com relação as espécies de gramas produzidas no País, foram identificadas através do Registro Nacional de Cultivares um total de 15 diferentes espécies de gramados e 67 diferentes cultivares dentro do respectivo agrupamento. Porém, algumas cultivares gramas registradas no RNC não são produzidas no Brasil em função de sua adaptação climática a regiões de clima frio (Lollium perene L. e Poa trivialis L.).

Produção de gramas no Brasil

Figura 2: Aumento da área de produção de gramas no Brasil ao longo dos anos de 2010-2022.

Dentre os aproximados 25 mil hectares produzidos no Brasil atualmente, os dados do RENASEM permitem estimar 316 unidades de produção distribuídas pelo país: 50,95% na região Sudeste, 18,04% na região Sul, 11,08% na região Norte, 9,17% no Nordeste e 10,76% no Centro-Oeste (Figura 3).

Mapa da representatividade da porcentagem das unidades de produção de gramas no Brasil

Figura 3: Mapa da representatividade da porcentagem das unidades de produção de gramas no Brasil. Fonte: MAPA (Renasem)

Com relação as espécies de gramas produzidas no País, foi realizado um levantamento mais detalhado junto ao ministério da agricultura e a Associação Grama Legal. Inicialmente foram identificados quais são as espécies registradas no Brasil, onde o levantamento realizado junto ao sistema RNC (Registro Nacional de cultivares), foram identificadas no total 14 diferentes espécies de gramados, sendo que são totalizados 62 diferentes cultivares registrados. Contudo, algumas dessas gramas não são produzidas, como as espécies de estação fria (Lollium perene L. e Poa trivialis L.).

Tabela 1:

Espécies de gramas registradas no Brasil e número de variedades de cada espécie, junto ao site do RNC.

Espécie Registros
Zoysia japonica Steud 5
Zoysia matrella(L.) Merr. 2
Zoysia japonica Steud. x Zoysia tenuifolia Willd. ex Thiele 1
Axonopus affinis Chase = A. fissifolius (Raddi) Kuhlm 8
Axonopus parodii (Valls, ined.) 1
Paspalum notatum Flüggé 2
Paspalum notatum Fluggé var. notatum = P. notatum var. latiflorum Döll 4
Paspalum lepton Schult. 1
Paspaulum vaginatum Sw. 3
Stenotaphrum secundatum (Walter) Kuntze; 2
Cynodon dactylon (L.) Pers. 22
Cynodon dactylon x C. traansvaleensis 3
Lollium perene L. 7
Poa trivialis L. 2
Festuca arundinacea Schreb 4
15 espécies 67

Fonte: Registro Nacional de Cultivares (RNC).

Apesar de existir um número considerável de espécies e cultivares inscritas e registradas junto ao MAPA, nem todas são cultivadas na mesma proporção, havendo diferenças significativas para cada espécie. No atual levamento realizado nesse ano de 2024 pela Associação Nacional Grama Legal, foram identificados que 83,24% dos viveiros de produção de mudas encontram-se ocupados com Zoysias (impulsionadas principalmente pela grama Esmeralda, a mais cultivada no país), seguida da São Carlos (11,76%), os mais diferentes tipos de bermudas (1,97%), 1,17% são Paspalum e 0,13% com Santo Agostinho (Figura 4).

Porcentagem das gramas produzidas no país

Figura 4: Porcentagem das gramas produzidas no país.

A grama Esmeralda (Zoysia japonica), representa a maior porcentagem de produção e comercialização no país, estando presente em todas as regiões do Brasil, devido a sua alta adaptabilidade. Ela é de origem asiática e apresenta crescimento rizomatoso e estolonífero, ou seja, forma um perfeito tapete quando ceifada devido ao entrelaçamento dessas duas estruturas. Isso a torna resistente ao pisoteio e trás uma ampla variedade de usos, como jardins residenciais, campos esportivos (como futebol amador e fairways de golfe), margens de rodovias, aeroportos, praças, parques e cemitérios.

As gramas Bermudas (Cynodon spp.) são altamente indicadas para campos esportivos de alta performance, pois algumas características as tornam essenciais para uso nesses locais. Primeiramente, por apresentarem o mesmo tipo de crescimento que a Esmeralda, faz com que elas sejam resistentes ao pisoteio e favorece seu uso para o setor esportivo, ainda suas folhas são finais e maciais, o que melhora a jogabilidade da partida, e amortecem a queda dos jogadores caso ocorra alguma queda durante o jogo. Essas espécies, são altamente agressivas, e assim se recuperam rápido após um dano ocasionado pela chuteira ou taco de golfe dos jogadores. Contudo, são extremamente exigentes em água e adubação, ou seja, manutenção constante, e assim acabam não sendo indicadas para uso no paisagismo, rodovias, etc.

De todas as espécies do gênero, as mais utilizadas em campos de futebol são as gramas “Celebration” (C. dactylon) e “Tifway 419” (C. dactylon × C. transvaalensis), e elas fazem parte das principais arenas esportivas do Brasil. Ainda existem as chamadas espécies dwarf ou ultradwarf que toleram alturas de corte muito baixas, de até 2 mm, e são utilizadas em greens de golfe (área mais nobre do campo, onde fica o buraco para tacada final), como Tifeagle, Tifgreen, Tifdwarf e Sunday (todas híbridos de C. dactylon × C. Transvaalensis).

Porcentagem das gramas produzidas no país

Figura 5: Porcentagem dos tipos de gramas produzidas pelos nossos associados.

A grama São Carlos, Curitibana ou Sempre-verde (Axonopus spp.) é uma das poucas gramas nativas disponíveis no mercado; ela é a espécie mais produzida na região sul do país e se destaca por ser mais tolerante a climas amenos e por manter o verde por mais tempo. De folhas brilhantes, a espécie registrada junto ao Ministério da Agricultura é a Axonopus fissifolius; contudo, no Brasil existem mais de 70 espécies do gênero, com diferenças muitas vezes imperceptíveis de uma para outra. Ela apresenta crescimento apenas estolonífero, ou seja, não tolera o pisoteio constante. Mesmo assim, diferente do que muita gente pensa e do que se observa em placas escritas em parques, praças e jardins, a grama apresenta estruturas para ser pisada, ou seja, “pise na grama”; o que não pode ocorrer é aquele famoso “caminho constante” no mesmo local, que acaba marcando o gramado e ele morre, deixando o solo sempre exposto.

A grama Santo Agostinho (Stenotaphrum secundatum) tem origem desconhecida; alguns a chamam de grama inglesa por ter sido muito utilizada na Inglaterra no século passado. Essa espécie é a mais utilizada atualmente no estado da Flórida, nos EUA; contudo, no Brasil seu uso se limita mais a regiões litorâneas, devido à sua boa tolerância à salinidade. Assim como a São Carlos, a grama Santo Agostinho apresenta crescimento apenas estolonífero, ou seja, não tolera pisoteio constante. Seu uso no Brasil tem diminuído com o passar dos anos.

As gramas do gênero Paspalum são espécies nativas, das quais a mais conhecida é a grama Batatais, também chamada Gramão ou Grama-Mato-Grosso (Paspalum notatum), que integrou os gramados brasileiros por várias décadas e chegou a ser a grama oficial de estádios nas décadas de 1950 e 1960. No Brasil, porém, são poucos os produtores registrados dessa espécie, com grande parte da oferta proveniente do extrativismo.

Outras variedades de Paspalum que chegaram ao Brasil nos últimos tempos são as chamadas seashore (Paspalum vaginatum), que são altamente tolerantes à salinidade e apresentam características semelhantes às bermudas, sendo indicadas principalmente para campos esportivos de alta performance, como o Seadwarf. Inclusive, a variedade “Platinum” dessa espécie foi utilizada como gramado oficial na Copa do Mundo FIFA de 2022 no Qatar, por poder ser irrigada com água do mar tratada.

Porcentagem das gramas produzidas no país

Figura 6: Destino da produção dos nossos Associados.

Novas espécies de gramas chegaram ao mercado Brasileiro na última década

Durante os últimos 10 anos, várias espécies de grama foram trazidas para o Brasil, impulsionadas pelo mercado consumidor que passou a buscar novidades para substituir variedades já existentes. A partir da década de 2010, novas espécies passaram a ser comercializadas no país.

  • 2014 – Zeon® (Zoysia matrella (L.) Merr.): usada no campo olímpico de golfe do Rio de Janeiro; gramado mais denso e de folhas mais finas que a Esmeralda; adequada também para paisagismo.
  • 2016 – GeoZoysia (Zoysia pacífica — Z. japonica × Z. tenuifolia): mini zoysia de folhas ainda mais finas; gramado muito denso, sem tufos; indicada para paisagismo e esportes, especialmente greens de golfe, pela baixa altura de corte.
  • 2018 – Barazur/Discovery (Cynodon dactylon): bermuda para paisagismo, de crescimento vertical lento e tonalidade verde-azulada diferenciada.
  • 2022 – Innovation (Zoysia): paisagismo, margens de rodovias e campos esportivos; tolerante à seca, mantém o verde em períodos secos. Latitude 36 (Cynodon dactylon × C. transvaalensis): foco esportivo, mantém o verde por mais tempo no inverno; indicada para climas subtropicais e de transição.
  • EMBRAPA – cultivares nativas: Paspalum notatum var. notatum (Tuim, Aruaí, Tiriba e Maritaca), Paspalum lepton (Chauá) e Curica (Axonopus parodii) validadas por produtores.
  • Mais recente – Tahoma 31 (Bermuda): ampla adaptação climática (tropical a temperado frio), boa tolerância a sombreamento; indicada para superfícies esportivas de elite; provável candidata à Copa do Mundo de 2026.

Ao longo dessas duas décadas, a Gramicultura tem se tornado um segmento agrícola cada vez mais promissor, com grandes investimentos de produtores em novas variedades e tecnologias para facilitar a produção.

Diante disso, a Grama Legal atua assegurando apoio técnico e legal aos Associados, além de orientar consumidores sobre compra e combate aos ilegais

Fonte: Associação Nacional Grama Legal / Safe Garden.