Cuidados com a grama na primavera

22 de setembro de 2026
Autora: Livia Sancinetti Carribeiro - Engenheira Agrônoma, Mestre em Agronomia (Irrigação e Drenagem), Doutora em Agronomia (Irrigação e Drenagem) pela UNESP, Botucatu-SP, e Coordenadora Executiva da Associação Nacional Grama Legal.

A primavera marca a retomada do crescimento dos gramados, com o aumento gradual da temperatura, da luminosidade e da disponibilidade de água. É um período estratégico para recuperar, adubar e preparar o gramado que teve seu desenvolvimento reduzido durante o inverno, para que cresça ativamente durante o verão.

Mas quais são os cuidados que o meu gramado precisa receber neste período de retomada do crescimento?

1. Adubação

Com a retomada do crescimento, o gramado aumenta sua demanda por nutrientes. A adubação deve ser baseada nos resultados da análise química do solo e na espécie cultivada.

Demanda nutricional de diferentes espécies de grama
Espécie Demanda nutricional
Bermuda Alta
Esmeralda Média
São Carlos Média/baixa
Batatais Baixa
Santo Agostinho Média/alta

As estações da primavera e do verão são períodos de maior demanda nutricional dos gramados. Por isso, recomenda-se, para esse período, a reposição de até 75% da adubação recomendada para um ano.

Distribuição recomendada da adubação entre primavera e verão
Estação Meses Percentual da adubação anual
Primavera Outubro, novembro e dezembro 25% a 35% da adubação
Verão Janeiro, fevereiro e março 30% a 40% da adubação

A última atualização do Boletim 100 do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) apresenta as recomendações mais recentes para gramados ornamentais e esportivos. Essas recomendações devem ser seguidas ao longo do ciclo de cultivo para garantir um bom programa de nutrição.

Recomendações de adubação para gramados
Espécie de grama N
g/m²
P resina, mg/dm³ K trocável, mmolc/dm³
< 16 16–40 > 40 < 1,6 1,6–3,0 > 3,0
Esmeralda 12 6 4 2 8 4 2
São Carlos 8 6 4 2 8 2 2
Santo Agostinho 20 6 4 2 8 4 2

As adubações deverão ocorrer de maneira parcelada e ser realizadas preferencialmente no início, no meio e ao final da estação de chuvas.

2. Irrigação

O desenvolvimento da grama depende da espécie, da idade, do tipo de solo, dos fatores climáticos, da fertilidade do solo, do manejo e, principalmente, da disponibilidade de água no solo.

A disponibilidade de água está relacionada aos elementos físicos do solo, que definem o sistema poroso por onde a água percola e fica armazenada. Ela também depende da prática de irrigação adotada e do ajuste adequado da lâmina de irrigação para o bom desenvolvimento do gramado, evitando déficits ou o encharcamento do solo.

Enquanto o déficit hídrico provoca a redução da densidade do gramado, torna a grama fosca e causa o enrolamento das folhas, o excesso de água pode alterar a textura e a cor das folhas, que podem se tornar marrons, além de prejudicar a absorção de nitrogênio. O excesso de água no solo também pode levar ao crescimento excessivo da grama, aumentando o número de cortes e favorecendo o desenvolvimento de um sistema radicular raso.

Conforme Santos (2022), de maneira geral, muitas espécies de grama demandam uma lâmina média de água de aproximadamente 25 mm por semana, equivalente a 25 L de água por m² de gramado. Essa lâmina deve ser considerada como referência para o manejo da irrigação, levando-se em conta a ocorrência de precipitações no período.

Nas semanas em que houver ocorrência de chuvas, a água fornecida pela precipitação deve ser considerada no cálculo da lâmina semanal. Nesse caso, a irrigação deve ser utilizada apenas para complementar o volume necessário. Quando a precipitação for suficiente, pode não haver necessidade de irrigação.

Já nas semanas em que não ocorrer precipitação, a lâmina de 25 mm deverá ser fornecida por meio de irrigações parceladas ao longo da semana, de acordo com as condições climáticas, as características do solo e a necessidade hídrica do gramado.

As irrigações no final da tarde devem ser evitadas, pois a manutenção da umidade das folhas pode levar ao aparecimento de doenças fúngicas no gramado. As irrigações, entretanto, podem ocorrer após as 22 horas.

3. Corte

Durante o outono e o inverno, a frequência de podas é reduzida, e o gramado precisa ser mantido com altura superior à recomendada, a fim de preservar uma quantidade suficiente de reservas para a manutenção da sanidade das plantas durante as estações mais frias do ano.

Com o início da primavera e a retomada do crescimento do gramado, em função da elevação das temperaturas médias do período e do consequente aumento do metabolismo das plantas, a frequência de podas deve ser aumentada, e a altura da parte aérea poderá ser diminuída, respeitando-se as recomendações técnicas para cada espécie.

Frequência de podas e altura ideal de corte
Espécie Outono/inverno Primavera/verão Altura ideal de corte da parte aérea
Zoysia japonica 1–2 vezes a cada 15 dias 1–2 vezes por semana 1,5–5,0 cm
Zoysia matrella 1–2 vezes a cada 15 dias 1–2 vezes por semana 1,5–5,0 cm
Zoysia híbrida (Z. japonica × Z. matrella) 1–2 vezes a cada 15 dias 1–2 vezes por semana 1,5–4,0 cm
Axonopus fissifolius 1–2 vezes a cada 15 dias 1–2 vezes por semana 3,0–6,0 cm
Bermudas (Cynodon dactylon) 1–3 vezes por semana 1–5 vezes por semana 1,5–3,0 cm
Bermudas híbridas (C. dactylon × C. transvaalensis) 2–6 vezes por semana 1–3 vezes por semana 0,125–3,0 cm
Paspalum notatum 1 vez a cada 15 dias 1 vez por semana 3,0–7,0 cm

Adaptado de: Manual sobre gramados. 2026. Santos, P. L. F.; Godoy, L. J. G.

Também deve-se evitar o corte excessivamente baixo do gramado, conhecido como escalpelamento, para não favorecer a germinação de plantas daninhas dormentes no banco de sementes do solo.

Deve-se optar por roçadeiras que danifiquem o mínimo possível as folhas da grama, preferencialmente roçadeiras de corte helicoidal ou com lâmina rotativa bem afiada, para evitar o aparecimento de doenças fúngicas de primavera e verão.

É essencial, após o corte da grama, realizar a remoção das aparas, pois os resíduos vegetais no gramado, como restos de folhas, ao se decomporem, darão origem a uma camada orgânica entre as estruturas vegetativas e o solo, denominada thatch, ou colchão.

Essa camada deixa a grama mais acolchoada ao pisar, dificulta o desenvolvimento do gramado, reduz a formação de raízes e prejudica a penetração e a absorção de água e nutrientes.

Quando isso ocorre, é essencial realizar a remoção dessa camada por meio do corte vertical. O corte vertical pode ser feito com o auxílio de máquinas específicas ou, no caso de jardins, com o auxílio de rastelos.

Não é recomendado realizar esse procedimento mecanicamente em gramas de crescimento estolonífero, como a São Carlos e a Santo Agostinho, cujas estruturas de propagação crescem sobre a superfície do solo.

4. Descompactação do solo

A descompactação é uma prática de revitalização recomendada para a primavera e o verão. Trata-se de um processo de furação do solo, a profundidades que podem variar entre 10 e 20 cm.

A descompactação pode ser realizada de maneira mecanizada, com pino oco ou sólido, ou com o uso de garfos de jardim, sapatos de pregos e máquinas hidráulicas. O procedimento visa desestruturar o solo, a fim de melhorar a respiração das raízes e a infiltração da água proveniente das chuvas.

O ideal é realizar cerca de 350 a 450 furos por metro quadrado.

5. Cobertura mineral e orgânica: top dressing

A cobertura do solo, ou top dressing, consiste na distribuição de uma camada fina de areia, areia média com composto orgânico ou areia média com composto orgânico e solo, com o objetivo de favorecer o desenvolvimento da grama.

Essa prática é realizada após a furação ou descompactação do solo e tem como objetivos promover o micronivelamento do gramado, corrigir pequenas imperfeições causadas pelo pisoteio, melhorar a infiltração de água e diminuir o thatch, ou colchão.

A quantidade de cobertura de solo ou top dressing recomendada para a manutenção de gramados ornamentais é de 2 a 5 kg/m² ou 3 a 6 L/m².

Composições ideais para a cobertura do solo
Espécie Composição ideal
Esmeralda Areia + composto orgânico + solo (2:1:1)
Areia + composto orgânico (3:1)
São Carlos Areia + composto orgânico + solo (1:1:1)
Areia + composto orgânico (2:1)
Bermudas Areia + composto orgânico + solo (3:2:1)
Areia + composto orgânico (3:1)
Areia média lavada
Batatais Areia + composto orgânico + solo (1:1:1)
Areia + composto orgânico (2:1)
Santo Agostinho Areia + composto orgânico + solo (2:1:1)
Areia + composto orgânico (2:1)

Adaptado de: Manual sobre gramados. 2026. Santos, P. L. F.; Godoy, L. J. G.

6. Pragas e doenças

O aparecimento de uma doença no gramado é resultado de um manejo deficiente ou excessivo.

Manejo deficiente

  • Plantas desnutridas;
  • Manejo inadequado da irrigação;
  • Podas mal realizadas;
  • Sombreamento;
  • Uso de espécie inadequada.

Manejo excessivo

  • Excesso de adubações;
  • Excesso de irrigações e encharcamento;
  • Podas excessivas;
  • Acúmulo excessivo de thatch.

Dessa forma, a manutenção de um gramado saudável depende de um bom programa de adubações, irrigações e podas e, principalmente, do acompanhamento de um profissional especializado.

Contudo, se o dano ao gramado for severo o suficiente para limitar a adoção de práticas preventivas de manejo, o ideal é realizar o controle químico, utilizando produtos registrados para a cultura da grama.

Principais doenças de primavera e verão

Pythium, Curvularia, Sclerotinia — Dollar spot —, fusariose, antracnose, carvão, vírus do mosaico, cercosporiose e summer patch.

Principais pragas de primavera e verão

Percevejo-das-gramas, cigarrinhas, cochonilhas, cochonilha-pérola-da-terra, paquinhas, lagarta-militar, lagarta-rosca, lagarta-do-trigo, cupins, formigas, ácaros, lesmas e minhocas.

Confira também nosso conteúdo sobre pragas e doenças.

7. Controle de plantas daninhas

Assim como as pragas e doenças, a contaminação do gramado por plantas daninhas também pode ser resultado de um gramado mal manejado.

Dessa forma, um gramado bem manejado, bem nutrido, bem irrigado e denso dificilmente será contaminado por espécies invasoras. Por outro lado, um gramado desnutrido, desidratado, que cresce em solo compactado e é frequentemente escalpelado será um ambiente ideal para o surgimento de plantas daninhas.

As principais espécies invasoras de gramados encontradas em condições brasileiras podem ser consultadas em nosso conteúdo sobre plantas daninhas.

Confira nosso conteúdo sobre plantas daninhas.

Perguntas Frequentes

Por que a primavera é uma época importante para o gramado?

A primavera marca a retomada do crescimento dos gramados, com aumento gradual da temperatura, da luminosidade e da disponibilidade de água. Por isso, é um período estratégico para recuperar, adubar e preparar o gramado para o verão.

Qual é a lâmina média de água recomendada para muitas espécies de grama?

De maneira geral, muitas espécies de grama demandam uma lâmina média de aproximadamente 25 mm de água por semana, equivalente a 25 L de água por m² de gramado. Essa referência deve ser ajustada de acordo com as chuvas, as condições climáticas, as características do solo e a necessidade hídrica do gramado.

Por que as irrigações no final da tarde devem ser evitadas?

As irrigações no final da tarde devem ser evitadas porque a manutenção da umidade das folhas pode favorecer o aparecimento de doenças fúngicas no gramado.

O que é o thatch ou colchão do gramado?

O thatch, ou colchão, é uma camada orgânica formada entre as estruturas vegetativas e o solo pela decomposição de resíduos vegetais. Quando se acumula, pode dificultar o desenvolvimento do gramado, reduzir a formação de raízes e prejudicar a penetração e a absorção de água e nutrientes.

Qual é a finalidade da descompactação do solo?

A descompactação promove a furação do solo, geralmente entre 10 e 20 cm de profundidade, com o objetivo de melhorar a respiração das raízes e a infiltração da água proveniente das chuvas.

Como prevenir o surgimento de plantas daninhas no gramado?

Um gramado bem manejado, nutrido, irrigado e denso apresenta menor risco de contaminação por espécies invasoras. Já gramados desnutridos, desidratados, cultivados em solo compactado ou frequentemente escalpelados favorecem o surgimento de plantas daninhas.